adicionar aos favoritos | Lençóis Paulista/SP

30/05/2007 15:37
Freqüentemente, podemos observar no mundo contemporâneo um apelo ao respeito da diversidade cultural. Este discurso parte da necessidade de reconhecermos a importância de outras culturas em relação à nossa, já que está, há tempos, consolidada a idéia de que temos uma unidade biológica, sejamos nós índios, americanos, africanos, ou qualquer outra etnia. Nesse sentido, surge uma das bases da Antropologia, o relativismo cultural, isto é, os valores são relativos a cada cultura, não existindo um valor objetivo, que sirva para todas.
Esta idéia permeia bastante as ciências sociais modernas, fundamentando uma série de estudos que se encontram nas bibliotecas do País e do mundo. Muitos defendem o relativismo cultural como sendo a solução para o entendimento de todas as sociedades. Isso é fato: conseguimos enxergar as diferenças entre uma cultura e outra através do entendimento das funções que cada ação exerce sobre uma dada sociedade e, com isso, entendê-las em termos ao menos gerais.
Entretanto, o relativismo cultural não é útil para a ética, porque, se os valores são relativos a cada cultura, em uma podemos ter um bem que em outra é considerado um mal. Isto é, não temos bem e mal objetivos. Neste caso, de fato, o bem e o mal não existiriam. De acordo com o relativismo, o “bem” seria “o que é socialmente aceito”. Seguindo este raciocínio, temos que, se matar pessoas em uma cultura é socialmente aceito, então matar pessoas é um bem, relativo a cultura observada. Mas pensando no âmbito da humanidade como um todo, como proceder numa conduta moral, na educação de filhos, na educação de alunos etc.?
Segundo o relativismo, se o bem e o mal não existem objetivamente, poderíamos, por exemplo, empreender uma luta a favor da matança, procurando convencer todo o mundo a aceitar tal ação, convencendo as pessoas objetiva e subjetivamente, até que matar pessoas seja algo socialmente aceito. Mas isso é plausível? Onde, então, o relativismo desliza?
O relativismo desliza quando força-nos a nos conformar com as normas sociais; caso contrário, entramos em contradição. Assim, abre-se pressuposto para fazermos o que bem entendemos. Porém, globalizando a questão à humanidade, se formos nos conformar com tudo o que é socialmente aceito em uma cultura ou em um grupo, o mundo virará um caos, porque todos poderão fazer o que bem entendem sem hesitação. É claro que todos nós temos o direito de ir e vir e fazer o que bem entendemos, mas se o relativismo cultural exclui o bem e o mal a desordem toma conta.
Muitos relativistas culturais —guardadas as exceções—, em relação aos que não o são, afirmam que são mais tolerantes quando estão diante de sua cultura, bem como de outras distintas. A própria tolerância é um valor tido como algo “bom” e “socialmente aceito”. Nesse sentido, o relativista pode se contradizer, porque não aceitaria ser intolerante, já que o ser torna-o uma pessoa que não respeita outras culturas. Logo, ele assume que a tolerância é um valor objetivo, mesmo que involuntariamente, e afirma que é ruim sermos intolerantes. Desse modo, um relativista, que não acredita em bem e mal objetivos, assume que existe um valor importante a ser considerado, a tolerância.
Algumas considerações do professor Harry J. Gensler, de seu livro “Ética: uma introdução contemporânea” (original em inglês: Ethics: A comtemporary introduction), o qual uso para basear este artigo, ajudam-nos: “Aceitar o relativismo cultural priva-nos de exercer qualquer sentido crítico a respeito das normas da nossa sociedade. Estas normas não podem estar erradas — ainda que resultem da estupidez e da ignorância [de acordo com o relativismo]. (...) O relativismo cultural contraria o espírito crítico que é próprio da filosofia.”
Ainda de acordo com Gensler, “o simples fato de existir desacordo [moral entre sociedades] não mostra, contudo, que não existe verdade neste domínio e que nenhum dos lados está certo ou errado. O extenso desacordo entre diferentes culturas a respeito de antropologia, religião e até em física, não impede a existência de verdades objetivas nestes domínios. Logo, o desacordo em questões morais não mostra que não exista verdade nestes assuntos.” Com o exposto, de fato, seria raso afirmarmos que a filosofia deve encerrar-se no relativismo. Portanto, não é profundo quando afirmarmos que bem e mal não existem.
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Obrigado pelos comentários dos últimos posts.
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CONSIDERAÇÕES
Coloquei no título "volume 1" porque há bastante coisa para se falar a esse resepeito e, conforme o tempo passa, estou tentando amadurecer a idéia. Provavelmente, aparecerão novos textos que fundamentem a perspectiva de bem e mal objetivos.
IMAGEM
Esqueci o nome da pintura.
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Até a próxima!