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Ética e relativismo cultural

Ética e relativismo cultural

02/08/2007 11:17

Este texto é um aprimoramento do texto anterior.

RESUMO
Este artigo trata da ética e do relativismo cultural. Procura mostrar que o relativismo cultural enquanto princípio de conduta moral não é plausível para uma ética uiversal, isto é, para todos os povos. Afirma também que o desacordo moral entre sociedades não mostra que não há verdades neste domínio.

ABSTRACT
This article treats of ethics and cultural relativism. It seeks to show that the cultural relativism, while principle of moral conduct, is not plausible for one universal ethic, that is, for all people. Also, argues that the moral disaccord between societies does not show that does not exist truths in this domain.

*

Freqüentemente, podemos observar no mundo contemporâneo um apelo ao respeito da diversidade cultural. Este discurso parece partir da necessidade de reconhecermos a importância de outras culturas em relação a nossa, já que há tempos está consolidada a idéia de que temos uma unidade biológica, sejamos nós vermelhos, brancos, negros ou de qualquer outra cor. Nesse sentido, surge uma das bases da Antropologia, o relativismo cultural, isto é, os valores são relativos a cada cultura, não existindo um valor objetivo que sirva para todas.

Esta idéia permeia bastante as ciências sociais modernas e contemporâneas, fundamentando uma série de estudos que se encontram nas bibliotecas do País e do mundo. Muitos defendem o relativismo cultural como sendo um meio para o entendimento das sociedades. Isto é fato: conseguimos enxergar as diferenças e peculiaridades entre uma cultura e outra através do entendimento das funções que cada ação exerce sobre uma dada sociedade e, com isso, entendê-las ao menos em partes. Portanto, ele é útil como ferramenta de estudo.

Entretanto, o relativismo cultural não é útil para uma ética do mundo globalizado, enquanto princípio de conduta, porque, se os valores são relativos a cada cultura, em uma podemos ter um bem que em outra é considerado um mal. Isto é, não temos bem e mal objetivos. Desse modo, eles não existem.

De acordo com o relativismo, o “bem” seria “o que é socialmente aceito”, tanto em nossa sociedade ocidental quanto em uma cultura particular de um lugar específico da África, por exemplo. No caso de uma cultura muito específica e não ocidental, como o caso de alguns povos nativos, o “bem” é algo tido como “bem” por todos os membros desta cultura, diferente do que é socialmente aceito no mundo ocidental, que pode variar dependendo do caso.

Seguindo este raciocínio, temos que, se matar pessoas em uma cultura é algo socialmente aceito, então matar pessoas é um bem, relativo à cultura observada. É claro que o exemplo de matar pessoas é um exemplo de contraste, o qual uso porque muitas pessoas não querem morrer e tantas outras não querem matar uma pessoa que gostam. Não podemos ignorar também que, não raro, o sacrifício, no sentido antropológico, exerce uma função de bem social em uma porção de culturas. Os grandes textos chineses, por exemplo, atribuem ao sacrifício a função de estabelecer a ordem, acalmar os povos, ou seja, exercer um bem à sociedade, embora, mesmo nesses casos, o sacrifício não traga calma efetiva (duradoura), já que a violência, na forma de vingança, não cessa (ver René Girard, A violência e o sagrado, Paz e Terra, 1998). Com o relativismo, como proceder, então, numa conduta moral, na educação de alunos, filhos (para quem quer) etc.?

Com o relativismo cultural a conduta moral torna-se complicada, pois força-nos a nos conformar com as normas sociais, com aquilo que é socialmente aceito; caso contrário, entramos em contradição. Assim, abre-se pressuposto para fazermos o que bem entendemos. Porém, globalizando a questão à humanidade, se formos nos conformar com tudo o que é socialmente aceito em uma cultura ou em um grupo (mesmo dentro de nossa cultura), o mundo virará um caos, porque todos poderão fazer o que bem entendem sem hesitação, já que se abre pressuposto para tal. É claro que todos nós temos o direito de ir e vir e fazer o que bem entendemos, mas bem sabemos que fazer TUDO o que podemos não é uma boa opção.

Então, se o relativismo cultural exclui o bem e o mal, a desordem toma conta. Toma conta porque vamos poder desobedecer à lei, a qual regula de algum modo a sociedade, ou nem tê-la. De fato, desobedecer à lei (ou não tê-la) não é ruim para alguns, mas é ruim quando mexe com esses alguns. Vejamos um exemplo: se o relativismo cultural exclui bem e mal objetivos e, portanto, abre pressuposto para fazermos o que bem entendemos e, assim, abre a possibilidade de ignorarmos a lei, vamos poder pegar quem nós odiamos, roubar tudo o que eles têm e prende-los em uma caixa negra, isolada, para não interagirem com ninguém. Será que eles vão gostar? É claro que não, porque, por exemplo —entre vários outros—, estudos na área de Psicologia mostram que nós somos feitos uns para os outros, mostra que a espécie Homo sapiens sapiens tem a necessidade de se inter-relacionar (ver David G. Myers, Cap. 15, Psicologia Social, livro: Explorando a Psicologia). Este é um caráter de nossa espécie.

Um parêntese no texto, pois aqui há um problema: há aqueles que questionam a Psicologia enquanto ciência e enquanto uma ferramenta útil para o entendimento do comportamento humano. É importante, contudo, deixar claro que uma coisa é ser uma ciência que domina o conhecimento da mente (o que ainda hoje não existe e não é também o caso da Psicologia) e, outra coisa, é ser uma ciência que estuda processos mentais e o comportamento humano, o que não significa o domínio do entendimento da mente. Antes de criticar ou supor, é preciso um aprofundamento para saber melhor o que é Psicologia, porque apenas só supor com uma meia dúzia de conhecimentos adquiridos por aí não resolve. A Psicologia é útil, basta ir até ela e conferir, mas isso não cabe a este texto.

Continuando: muitos relativistas culturais —guardadas as exceções—, em relação aos que não o são, afirmam que são mais tolerantes quando estão diante de sua cultura, bem como de outras distintas. A própria tolerância é um valor tido como algo bom para ele. Nesse sentido, o relativista pode se contradizer, porque afirma que não existem bem e mal objetivos, mas toma um valor tido como um bem para valer-se de seu próprio princípio relativista. Assim, ele assume que a tolerância é um valor objetivo, mesmo que involuntariamente, e afirma que é ruim sermos intolerantes. Desse modo, um relativista, que não acredita em bem e mal objetivos, assume que existe um valor importante a ser considerado, a tolerância.

Outros exemplos que mostram a ineficácia do relativismo para a ética a que me refiro: se não há bem e mal, para que fazer projetos vindos da Ciência que beneficiem a sociedade? Para que criar um remédio que cure uma doença se o bem e mal não existem? Os projetos para beneficiar a sociedade não são se não coisas consideradas boas já que seus inversos seriam coisas ruins? Se não existe bem e mal, para que desejar justiça?

Para finalizar, algumas considerações do professor Harry J. Gensler, de seu livro Ethics: A comtemporary introduction (tradução do capítulo 1, Relativismo cultural, por Paulo Ruas), ajudam-nos: “Aceitar o relativismo cultural priva-nos de exercer qualquer sentido crítico acerca das normas da nossa sociedade. Estas normas não podem estar erradas — ainda que resultem da estupidez e da ignorância [de acordo com o relativismo]. (...) O relativismo cultural contraria o espírito crítico que é próprio da filosofia.”

Ainda de acordo com Gensler, “o simples fato de existir desacordo [moral entre sociedades] não mostra, no entanto, que não existe verdade neste domínio e que nenhum dos lados está certo ou errado. O extenso desacordo entre diferentes culturas a respeito de antropologia, religião e até em física, não impede a existência de verdades objetivas nestes domínios. Logo, o desacordo em questões morais não mostra que não exista verdade nestes assuntos.” Com o exposto, de fato, seria raso afirmarmos que o conhecimento deve encerrar-se no relativismo. Portanto, não é profundo quando afirmarmos que bem e mal não existem. Todo o exposto, é claro, para aqueles que prezam pela vida humana. O assunto continua, mas isso fica para outros textos.


FONTE FOTO
http://www.livingroom.org.au/photolog/children.jpg

CONSIDERAÇÕES
Obrigado pelos comentários dos últimos posts. Até a próxima.

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